Cinema desde o berço


Cinema desde o berço

Desde pequenininha eu amava filmes. Uma de minhas memórias mais antigas e mais vívidas é de ir ao cinema assistir TOY STORY 2 com minha mãe e meu primo quando tinha apenas 5 anos. Sempre fui de dormir tarde e quando pequena tinha medo do escuro, então ficava na cama com meus pais até a hora de dormir. Eles acabavam pegando no sono, com a HBO ligada e eu ficava acordada até de madrugada, fascinada pelo que estava assistindo.

            Sempre gostei de storytelling. Lembro que criava personagens novos e reescrevia filmes inteiros, como Harry Potter, na minha cabeça. Mas nunca pensei em levar isso como algo sério. Sabia que haviam pessoas por trás de tudo, mas não tinha ideia como faziam para chegar lá. Fui me aprofundado no assunto e aos 10 anos de idade já conhecia inúmeros diretores e atores. O auge para mim foi em 2006, quando viajei para Los Angeles. Por sempre ter sido apaixonada por Hollywood, queria ficar no famoso Chateau Marmont, hotel conhecido por receber inúmeras celebridades. O que não sabia é que as datas nas quais ficaríamos no hotel, coincidiam com o final de semana do Globo de Ouro. Na primeira noite, recebemos um convite para um coquetel da revista Rolling Stone que seria realizado na cobertura do hotel. No dia seguinte fomos e lá vi pessoas como Chloe Sevigny, Jason Segal e Kat Dennings. Já estava pirando. Na mesma noite, voltamos do jantar e recebemos outro convite, dessa vez para um coquetel da Paramount que aconteceria na área comum do hotel, e que como um pedido de desculpas pelo inconveniente, todos os hóspedes estariam convidados. Minha mãe até brincou “Deve ser coisa de funcionário, nem deve ser tão legal”. Eis que no sábado, chegando no hotel, filas de carros de luxo e paparazzis cercavam o local. Resolvemos então descer, e esse foi o que até hoje considero um dos melhores momentos da minha vida. Terrence Howard, Robert Downey Jr., Zachary Quinto, Emma Roberts, Catehrine Keneer, Chris Pine, Sharon Stone, Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Angelina Jolie reunidos em um espaço de 100m3 e eu no meio de todos. Sem mencionar que esses são apenas os que me recordo…

            Foi então que com 15 anos descobri que era possível cursar a faculdade de cinema e que a FAAP em São Paulo era a melhor na América Latina. Na mesma hora deixei qualquer possibilidade de cursar outra coisa para fora da porta. Com 16 fui para um Summer camp em Yale. Eram três semanas de curso livre, onde você poderia escolher sua grade horária, além de conviver com culturas do mundo inteiro. Eu escolhi Roteiro e Produção de Video. Lá, tive meu primeiro contato mais concreto com o mundo do cinema e seu funcionamento. Na aula de roteiro aprendi sobre a estrutura de um roteiro, sobre como os três atos funcionam, sobre a jornada do herói e coisas do tipo. Dissecamos diversos roteiros que possuem a mesma fórmula, e por isso muitas vezes ressoam com o público. Na aula de Video Making, o instrutor havia trabalhado com Michael Bay. E assim fui introduzida as diversas profissões que envolvem o fazer de um filme.

            Quando chegou a hora de escolher uma faculdade, não pensei duas vezes. Nem cheguei a prestar outra coisa. Na FAAP foi a hora de “botar a mão na massa”. Foi onde aprendi que segmento gostaria de seguir. A princípio achava que queria direção e roteiro, porém aos poucos fui percebendo que meu perfil se encaixava muito mais na parte não tão prática, mas logística da coisa. Produção. Em 2014 fiz intercâmbio em Londres na London College of Communication. Lá tive experiências incríveis, que me ensinaram imensamente como administrar tempo e orçamento de uma maneira que a FAAP jamais me ensinou. Lá tivemos dois projetos, uma diária com X libras para fazermos um curta em um estúdio na faculdade, onde construímos o Set do zero. E outro curta onde teríamos 3 dias para gravar em locação. São até hoje dois dos meus projetos favoritos nos quais trabalhei até hoje.

            Enquanto na FAAP, cheguei a estagiar em uma produtora de conteúdo, onde estávamos produzindo um série doc. Cheguei como estagiária de produção mas aos poucos fui promovida para assistente de produção, uma vez que acabei fazendo mais coisas que imaginava. Infelizmente o projeto encareceu demais e caiu. Depois de formada, tive uma grande dificuldade em encontrar algo na área, e acabei trabalhando com meu pai em sua empresa que não tem absolutamente nada a ver com a indústria. Não queria desistir de cinema tão fácil. Foi então que resolvi que era hora de tornar meu sonho realidade. Apliquei para estudar na UCLA e passei.

            Em junho de 2017 me mudei para Los Angeles para estudar Produção e também Gestão e Administração de Entreterimento na UCLA. Era algo com o qual sonhava desde pequena. Lá foi onde mais aprendi. Foi onde eu realmente passei a enxergar o cinema como indústria, algo que sinto um pouco de falta aqui no Brasil. Lá a disciplina aplicada é a mesma aplicada a uma fábrica por exemplo. Com horas extras, direitos trabalhistas, união, etc. Não que aqui não tenhamos, mas todos que trabalhamos com isso sabemos que não é para qualquer um, que as horas são muitas vezes excruciantes, que as vezes as coisas não fluem tão bem quanto deveriam… Tinha palestras com heads do Netflix, pessoas que se referiam a Steven Spielberg como Steve, que trabalharam com Quentin Tarantino, que produziram alguns dos maiores filmes da década ou até mesmo filmes que eu era apaixonada e ninguém conhecia. A possibilidade de assistir TODOS os filmes em tela grande, e não ter que esperar ou até mesmo torcer para ele passar no Netflix ou no NOW, foi algo transformador para mim,

            Lá trabalhei em três empresas diferentes, relacionadas a cinema. A primeira foi uma agência de vendas internacionais, a qual herdou grande parte dos filmes da Weinstein Company após o escândalo. A segunda trabalhei mais com compras, vendas e distribuição, que são focos meus. Lá trabalhavam Silvester Stallone e John Voight. Por meio dessas duas empresas, tive a oportunidade de comparecer ao AFM, um dos principais mercados de cinema. Na última empresa, trabalhei como assistente direta do diretor Peter Berg. Aos poucos fui percebendo que lá seria apenas mais uma, e que talvez voltando para o Brasil e aplicando o conhecimento que adquiri ao longo dos anos, conseguiria me destacar.

            Já estava pensando em voltar e acabei conhecendo Gui Pereira lá em Los Angeles mesmo. Ele comentou que estava com uma produtora no Brasil e que deveria conhecer. Foi assim que conheci a Dodô. Quando voltei de vez, recebi a proposta de ser uma de suas produtoras e não podia recusar. Além de acreditar que temos muito potencial, é um dos melhores ambientes nos quais já trabalhei. Todos competentes, divertidos. Nem parece trabalho. E aqui estou!

Por Stephanie Chaya